Quais são os cinco projetos que a Capital mostra ao mundo na megaexposição que mobiliza 192 países na cidade chinesa
Não foi o fato de ser sede da Copa do Mundo 2014 nem as tradições gaúchas que colocaram Porto Alegre entre as 55 cidades selecionadas para participar da Expo 2010. Foram as práticas conhecidas como democracia participativa que levaram a capital gaúcha até Xangai, a mais cosmopolita metrópole da China e anfitriã da maior exposição mundial de todos os tempos.
Com o tema Cidade Melhor, Vida Melhor, a Expo 2010 reúne as melhores práticas urbanas do mundo. E a de Porto Alegre está entre elas. Desde 1º de maio, cerca de 3,5 mil pessoas por dias conhecem os projetos do programa municipal de Governança Solidária Local, iniciada em 2005 como complemento ao Orçamento Participativo. O prefeito José Fortunati lembra que o reconhecimento faz parte de um processo que começou na cidade há várias décadas.
– Porto Alegre tem uma longa tradição de participação popular. Sempre tivemos associações de bairro fortes, a Fracab (Federação das Associações Comunitárias), os conselhos populares e o OP até chegarmos à governança: uma parceria entre comunidade, poder público e setor privado. Fazer governança é pensar além do orçamento – afirma Fortunati.
São histórias de cinco projetos desenvolvidos com os princípios de envolvimento entre as três forças que serão apresentados na China. O estande foi projetado pelo designer Marcelo Dantas, o mesmo do Museu da Língua Portuguesa (SP) e da exposição dos 50 anos do Grupo RBS. A montagem do espaço custou US$ 300 mil, bancados pelo Bureau Internacional de Exposições (BIE), organizador do evento.
Fortunati lidera uma comitiva que inicia neste domingo uma ambiciosa busca de parceiros para a construção de estacionamentos subterrâneos e para que a cidade passe a ser alimentada com energia limpa. Este é um dos retornos que o prefeito espera dos R$ 3,5 milhões que devem ser investidos até 31 de outubro, quando termina a Expo.
De toda a América do Sul, apenas São Paulo também participa do evento como cidade expositora. Também foram selecionadas experiências de cidades como Madri, Rotterdam, Paris e Düsseldorf, vizinha de pavilhão da capital gaúcha.
andre.machado@rdgaucha.com.br
ANDRÉ MACHADO
1-Mulheres solidárias
Mulheres organizadas e bem vestidas prepararam uma verdadeira exposição para esperar a reportagem em um final de manhã em um clube do bairro Sarandi, em Porto Alegre. Sobre as mesas, parte do trabalho de alta qualidade produzido pelas mais de cem artesãs reunidas em mais de três dezenas de grupo sob o guarda-chuva da ArteNorte. Uma associação que surgiu pela vocação natural da região para o artesanato e pela vizinhança com o Porto Seco, palco do Carnaval da Capital.
No começo, cada uma produzia do seu jeito. Algumas com trabalhos sem um bom acabamento. Juntas e com o apoio da Governança Solidária, encontraram o caminho para a qualificação. Nas empresas da região, buscam parcerias que reduzam seus custos ou mesmo o material necessário para a produção de objetos totalmente reciclados como as sacolas e as bolsas criadas a partir de banner de propaganda abandonados nas ruas ou de material recolhido dos arroios da região. Está formado o tripé da governança: comunidade, poder público e iniciativa privada.
Um dos grupos tem seu trabalho sendo vendido em todo o Brasil nas lojas da Tok&Stok. Duas designers de objeto imaginaram uma flor feita de pano, PET e arame. Fizeram um protótipo e entregaram nas mãos de Izabel Mello após uma consulta ao Banco Social da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs).
Com mais duas companheiras, a técnica de enfermagem deu vida ao projeto que ganhou o selo Crocheteiras. Já foram 1,2 mil peças em pouco mais de um ano. Muitas outras virão. Está superada a maior dificuldade para as artesãs: a comercialização.
2-Futebol social
A dona da bola e do time. Assim é a alegretense Marta Pinheiro Siqueira, 33 anos e quatro filhos. Com garra de dirigente de time grande é ela quem cobra disciplina dos cerca de 40 atletas com idade entre seis e 16 anos da Academia Chocolatão Futebol Clube. Todos moradores de uma das vilas mais miseráveis de Porto Alegre. Para jogar, só com atestado de frequência na escola e bom comportamento. O resultado são vitórias no campo e fora dele no último ano.
O time surgiu do desejo das crianças em também terem um time como os adultos. Com o apoio da Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc) e da Governança Solidária, colocou no papel a ideia de vincular o esporte à educação e à cidadania para manter os jovens na escola e longe das drogas. Surgiu a parceria com a rede de restaurantes Macaroni, que vestiu o time.
Do patrocinador, veio apenas o dinheiro e o nome nas costas da camiseta. A cor e o distintivo do clube foram criados pelo grupo. A cada novo atestado de frequência apresentado, Marta vai liberando outras doações: caneleiras, material de higiene, material escolar. A habilidade dos jogadores já fez sucesso nos campos de Canoas, Viamão e de Riozinho.
3-Vento da transformação
Pequenas embarcações paradas às margens do Guaíba, em Belém Novo, estão carregadas com um grande sonho: fazer da região um polo de turismo náutico. O sonhador é o ex-funcionário do Polo Petroquímico Sérgio Binato. Ao seu lado, um pescador de barba cerrada e cabelos compridos conhecido como Bagre e batizado de Júlio Oliveira.
A mudança começa na dedicação de um grupo de até 30 meninos dos seis aos 18 anos que participam do Vela Social. São eles que aprendem com Binato a como conduzir as velas dos oito Open Bic e oito Optimist até se tornarem campeões. Com Bagre, aprendem a respeitar o ambiente e ao garantir a preservação da biodiversidade no local. A aproximação com a governança fez com que a ideia do projeto evoluísse da navegação para a área social. Novos parceiros como Mormaii, Universitário e os próprios órgãos municipais integraram-se. Está formado o tripé da governança: comunidade, poder público e iniciativa privada.
Dois meninos do projeto estarão em Xangai na semana que vem. Maicon Cunha dos Santos, 15 anos, e Maikou André Brunhera Pinto, 13 anos, poderão contar como estavam no vídeo sobre o trabalho que desenvolvem. Binato espera que a concretização de um polo de turismo náutico em Belém Novo garanta emprego no futuro aos jovens do Vela Social.
4-Tecidos viram edredons
Na Vila das Laranjeiras, algo une um grupo de mulheres que se reúnem duas vezes por semana para trabalhar e, mais do isto, conviver. São mães, avós, viúvas, separadas, desempregadas ou não, que encontram em um pedaço de tecido, fios de linha e forro matéria-prima para confeccionar um edredon e dividir o lucro entre todas que participaram do processo.
O local de trabalho é um galpão de piso simples e sem forro no teto. Há tempos, são ameaçadas de despejo, mas resistem. O espaço é abarrotado de sacos recheados de um emaranhado de fios reciclados a partir de garrafas PET descartadas pelo porto-alegrense. É material doado pela Maxitex e chegou até as 20 mulheres por meio de uma parceria com o Banco Social da Fiergs e da Governança Solidária. O tecido é comprado com a ajuda do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE).
Cenira Vargas da Silva conta que passou mais de 20 dos seus 45 anos fazendo edredons. Há seis, os recheia com fios de garrafas PET. Além de trabalhar com as vizinhas, ensina mulheres das Ilhas a produzirem guardanapos de tricô e crochê. Um dos desafios agora é dar um toque de refinamento aos edredons revestidos até aqui com um tecido simples que afasta uma parcela da possível clientela. O produto da Art&Mãe pode e vai mais longe. Hoje está em Xangai. Em setembro, no Donna Fashion.
5-Esporte que dá samba
Duas paixões, futebol e Carnaval, estão juntas em um projeto que garante ocupação a quase 3 mil crianças. O Esporte dá Samba já virou uma tradição na folia da Capital. A iniciativa nasceu de um pedido do ex-secretário municipal de Esportes (SME) João Bosco Vaz ao jornalista Claudio Brito. Ele queria conhecer os projetos sociais da Mangueira e da Beija-Flor no Rio de Janeiro. No ano seguinte, a ideia já se transformava em desfile no Porto Seco.
O projeto é comandado pela assistência comunitária da SME. Os ensaios começam no meio do ano e ocorrem aos sábados, sempre em uma quadra diferente de escola de samba em parceira com a União dos Destaques do Carnaval (Udesca). Os ônibus para levar as crianças são cedidos pela Associação dos Transportadores de Passageiros (ATP). São 70 comunidades envolvidas. Está formado o tripé da Governança: poder público, iniciativa privada e comunidade.
E o Esporte dá Samba já fez campeões nas duas áreas. Clube sociais como Sogipa, Teresópolis e a dupla Gre-Nal treinam quase 500 integrantes do projeto. Os que se transformam promessa para o esporte ganham também educação formal. No Carnaval, a segunda porta-estandarte da campeã Imperatriz Dona Leopoldina, Gislaine Fernandes, primeiro carregou o estandarte do programa. O enredo para 2011: Lugar de Criança é Na Escola.
FONTE:ZH