Christopher Kastensmidt escreve sobre dupla de aventureiros no Brasil colonial
Há uma década, Christopher Kastensmidt, 38 anos, nascido no estado americano do Texas, mora em Porto Alegre. Mas Kastensmidt, escritor de aventura e fantasia, foi recentemente indicado a um prestigioso prêmio literário não por ter viajado no espaço, e sim no tempo.
Um conto de Kastensmidt ambientado no Brasil do século 17 misturando um aventureiro holandês, um guerreiro iorubá, a Salvador colonial e o lendário Saci Pererê concorre este ano ao Nebula, um dos mais importantes prêmios para a literatura de ficção e fantasia (o outro é o Hugo). O conto, originalmente escrito em inglês, foi publicado em edição brasileira recentemente pela Devir com o nome de O Encontro Fortuito de Gerard Van Oost e Oludara, em um volume no qual também figura a história A Travessia, de um dos grandes militantes da ficção de fantasia no Brasil, Roberto de Sousa Causo. Amparado em uma ampla pesquisa do Brasil colonial e usando o manancial mitológico com o qual tomou contato no Brasil, Kastensmidt planeja para seus dois personagens, o holandês Van Oost e o guerreiro africano Oludara, uma série de aventuras ambientadas em um Brasil colonial selvagem, cheio de mistério e de criaturas mágicas.
— Muita gente nos Estados Unidos me perguntou de onde havia saído a ideia de um "gênio da mata" como o Saci, poucos conhecem o mito lá fora. A cultura local é muito rica e promissora para a literatura que eu faço — diz o escritor.
Kastensmidt mudou-se para Porto Alegre em 2001. A pergunta sobre como veio parar no Rio Grande do Sul é a que mais escuta desde que se lançou como escritor. Com formação em engenharia de sistemas e arquitetura de processadores, ele trabalhava nos anos 1990 para a Intel, viajando pelo mundo como contato com outros programadores. Conheceu quatro jovens gaúchos sócios em uma empresa de criação de videogames e tornou-se o quinto sócio do empreendimento, estabelecendo-se em Porto Alegre. Em 2009, a empresa foi comprada pela multinacional Ubisoft, e algum tempo depois Kastensmidt desligou-se. Hoje atua como professor em universidades locais.
O projeto de se tornar escritor de ofício começou a ser acalentado em 2004, mas Kastensmidt se declara fascinado por ficção científica e fantasia desde a infância. Teve o que considera seu primeiro contato com narrativas fantásticas em livros de mitologia garimpados na biblioteca do pai. Com 10 anos, já havia lido tudo o que J.R.R Tolkien havia escrito, e durante a adolescência era um jogador assíduo de Dungeous & Dragons (jogo de representação de personagens ambientado em universos medievais fantásticos, considerado o marco fundador do moderno RPG).
— Os jogos vinham com um encarte com bibliografia, então eu corria atrás de todos os livros que apareciam ali — conta o escritor, em um português com apenas um leve sotaque.
Kastensmidt estreou na literatura com o conto Daddy's Little Boy, publicado na revista Deep Magic na edição 41, de outubro de 2005. De lá para cá publicou histórias em revistas norte-americanas (nos Estados Unidos, as revistas literárias são o território por excelência da história curta). A história que lhe garantiu a indicação ao Nebula saiu na edição de abril de 2010 da revista Realms of Fantasy. Entusiasmado, Kastensmidt já tem outros contos escritos e está elaborando uma história em quadrinhos estrelada por seus aventureiros coloniais.
ZERO HORA
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