sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Personagens relatam história da Campanha da Legalidade

Foto: Mariana Fontoura
Costa contou como instalou a rádio que formou a Cadeia da Legalidade
Foto: Elson Sempé Pedroso
Vereadores DJ Cassiá, Joã Dib e Luiz Braz com Lauro Hagmann (d)























Relatos de personagens que atuaram diretamente na história da Campanha da Legalidade, que ajudou a garantir a posse do então vice-presidente da República João Goulart após a renúncia do presidente Jânio Quadros, em 1961, foi pauta do período de Comunicações Temática desta quinta-feira (18/8), na sessão ordinária da Câmara Municipal Porto Alegre. O debate sobre a Legalidade, que na época teve a liderança do então governador do Rio Grande do Sul Leonel de Moura Brizola, foi mediado pelo jornalista e escritor Juremir Machado da Silva, que escreveu o livro Vozes Legalidade - Política e Imaginário na Era do Rádio

Ao abrir os debates, Juremir argumentou que, ao estudar a Legalidade, chegou a conclusão de que este é o “fato heróico maior dos últimos 50 anos no Brasil”. Ele destacou que muitos nomes se comportaram como heróis, como Leonel Brizola, Jango, e os sargentos da base aérea, mas destacou que Brizola foi o grande nome. Entretanto, lembrou, ainda, que muitos outros nomes, além da própria participação popular, tiveram relevância naquele momento. 

O jornalista disse que, após escrever o Vozes da Legalidade, aprendeu muito mais com o contato das pessoas que o procuravam para acrescentar dados históricos, documentos e fontes. “É como se fosse um livro interativo”, lembrou Juremir. Ele ainda destacou a participação da Rádio Guaíba, então requisitada pelo governador Brizola para transmitir a chamada Rede da Legalidade, direto dos porões do Palácio Piratini, sede do governo estadual.

Sobre o desfecho da Campanha da Legalidade, Juremir ressaltou que, enquanto Brizola era a ponta do movimento, com participação de forte resistência, foi João Goulart o responsável por ponderar e conversar com outras forças políticas. “Jango achou melhor assim para não haver uma guerra civil e um derramamento de sangue”, colocou. O jornalista ponderou ainda, a importância do movimento. “Podemos ir às ruas pelas causas, pelo justo, o legítimo, o correto, ou seja, à Constituição”, finalizou. 

Testemunhos

Resistência - Caio Lustosa lembrou que atuava como jornalista no chamado prédio mata-borrão, em um escritório de turismo, aonde as pessoas se inscreviam para participar do Movimento da Legalidade. O objetivo era divulgar e captar a população para o movimento. “Quando eclodiu o processo da Legalidade, de imediato fomos para lá montar um esquema de divulgação, através de panfletos. As palavras de ordem eram retransmitidas por auto-falantes pela cidade inteira”, recorda Lustosa.

Ele recordou que centenas de pessoas, diariamente, se compareciam ao Comitê da Resistência Democrática, com uma participação de forma cidadã e espontânea na defesa da Legalidade. “Durou pouco esse processo, mas terminou com um acordo de João Goulart com Tancredo Neves, no Uruguai, com a instalação do sistema parlamentarista”, relatou o jornalista. Ele disse se questionar se essa foi a melhor saída para o País, no momento. “A conciliação, na oportunidade, foi o melhor caminho”, ponderou.

Rádio - O operador técnico Celso Costa, funcionário da Rádio Guaíba desde a fundação da emissora, narrou seu trabalho de montagem do estúdio de rádio no porão do Palácio Piratini que liderava a Rede da Legalidade. "Fui convocado da manhã do dia 27 de agosto de 1961 pelo presidente da empresa, Breno Caldas, e à tarde, cerca de 15h15min, o governador Leonel Brizola fez o primeiro pronunciamento."

Disse que foi o operador nas primeiras 24 horas da rede, testemunhou o Piratini ser cercado por tanques do Exército, viu os estudantes da UNE do Rio de Janeiro que se entrincheiraram no palácio com revólveres calibre 38 para enfrentar os militares e revelou que ele próprio pegou um revólver. "Só depois percebi que o revólver era calibre 38, mas as balas que peguei eram de 32."

Fábula - O advogado Vitor Douglas Nunes, que integrou a coordenação do Comitê Central da Resistência Democrática, instalado no prédio do mata-borrão, disse que tem o sonho de escrever, em formato de fábula, o episódio. Para ele, a historiografia não dá o destaque que a campanha pela Legalidade merece. "Para minha surpresa, ao ler um livro de história sobre a renúncia de Jânio Quadros, o autor dedicou apenas quatro páginas para falar da Legalidade."

Nunes disse que queria transmitir de forma adequada a seus netos e às novas gerações a importância daquele movimento na história brasileira. "As pessoas precisam saber, por exemplo, que chegou a haver uma ordem de bombardeio contra a cidade", ressaltou.

Generais - O jornalista e advogado Índio Vargas disse que sua participação na Legalidade começou quando foi escalado pela direção do jornal Diário de Notícias para acompanhar o governador Leonel Brizola. Lembrou de Brizola falando ao telefone com generais, protestando contra a tentativa de golpe. "O governador acreditava que a renúncia de Jânio Quadros era um golpe articulado com os militares."

Índio Vargas acrescentou que ficou impressionado no episódio com a unanimidade das forças políticas gaúchas pela legalidade e pela posse de João Goulart na Presidência. "E esta unanimidade se explicava porque o que Brizola defendia era apenas a preservação do estado democrático de direito."

Mulheres - A advogada, professora, ex-vereadora e ex-deputada Terezinha Irigaray observou que o país estava num processo de golpe. "Se não queriam dar posse a Jango, queriam seu lugar." Para ela, o que tinha de ser feito foi o que Brizola fez: a resistência democrática. "Quando a Rádio da Legalidade entrou nos lares, com a voz forte de Brizola conclamando o povo, não havia quem pudesse resistir ao apelo. Brizola sabia como falar ao povo e ele estava ao lado do melhor elemento que um governante pode ter, a Constituição."
Voz - O jornalista e radialista Lauro Hagemann, o apresentador da voz do Repórter Esso, e que se transformou na Voz da Legalidade, não se aprofundou na cronologia que já havia sido exposta pelos palestrantes anteriores. Disse que o Brasil está precisando de mais um movimento como da Legalidade para sair do estado de letargia, penúria e a desfaçatez inominável de alguns políticos.

Hagemann reconheceu que sua voz deu credibilidade. “Tive um surto de patriotismo e me apresentei voluntariamente como locutor da Rede da Legalidade". Lembrou os nomes do jornalista Hamilton Chaves, do engenheiro Homero Carlos Simon, o operador técnico Celso Costa e do secretário da rede, o ex-deputado Bruza Neto, que encabeçaram a rede. Destacou que a comunicação foi fundamental  e deu credibilidade ao movimento.

Salientou que o fato mais importante foi a prova de que a sociedade é capaz de coisas grandiosas e que é preciso manter esse espírito. Observou, ainda, que há setores da elite que gostariam de ver todas essas questões enterradas. Acrescentou que é um idealista convicto e que espera estar presente nas comemorações do centenário do movimento da legalidade.
Bombas - O sargento Caetano Vasto, da Aeronáutica, foi um dos personagem de 1961. Informou que se negou a cumprir a ordem do Comando da FAB para que Porto Alegre fosse bombardeada. Disse que não poderia acatar a ordem dos ministros militares. “Não poderia compactuar com o derramamento de sangue na minha pátria. Desobedeci a ordem do comando, que por sua vez desobedeceu a Constituição”, relatou. Disse se orgulhar de não ter permitido o enfrentamento proposto.

Leonardo Oliveira (reg. prof. 12552)
Marco Aurélio Marocco (reg. prof. 6062)
Vítor Bley de Moraes (reg. prof. 5495)

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