sábado, 3 de setembro de 2011

Os livros da selva

Estreou na semana passada em Porto Alegre mais um filme da série O Planeta dos Macacos. Com o subtítulo de A Origem, a produção é o que se convencionou chamar nos Estados Unidos de prequel -- conta a história ocorrida antes do clássico de 1968, estrelado por Charlton Heston e Roddy McDowall.

Filme este que é uma adaptação de La Planète des Singes, de 1963, escrito por Pierre Boulle. Não foi a primeira nem a única vez que a literatura se valeu desses animais em suas tramas. Já no século 16, o chinês Wu Chengen pôs no papel uma lenda de seu país. Jornada ao Oeste dá conta de uma peregrinação à Índia por um monge budista. Ele é protegido por um Rei Macaco capaz de, entre outras coisas, viajar dez mil quilômetros com uma simples cambalhota, ter imunidade contra fogo e água, poder voar montado em nuvens, carregar uma montanha em cada ombro, ficar invisível e transformar-se em qualquer coisa, seja animal, vegetal ou mineral.

Em 1914 o norte-americano Edgar Rice Burroughs lançou o primeiro livro da série Tarzan. Publicado dois anos antes na revista pulp All-Story Magazine, Tarzan of the Apes tornou-se tão popular que seu autor seguiu com o personagem em mais de duas dúzias de continuações (uma delas, Tarzan and the Jewels of Opar, foi traduzida por Manuel Bandeira e lançada no Brasil em 1956).

A história é bastante conhecida: filho de aristocratas ingleses que viviam na África Equatorial, o órfão John Clayton é batizado de "Pele branca" ("Tarzan", na linguagem animal imaginada no livro) por seus pais adotivos, os gorilas Kala e Kershak. Mais tarde, Tarzan encontra Jane Porter, jovem americana em excursão pela costa africana. Quando ela volta a seu país, Tarzan deixa a selva e sai em sua procura. Nos livros seguintes, Tarzan e Jane chegam a se casar e ter um filho, Jack. Descontente com a hipocrisia da civilização, a família retorna para a África, local onde ocorrem as aventuras posteriores do herói.

Tarzan of the Apes teve relativo sucesso crítico na época de sua publicação. Os livros subsequentes foram recebidos mais sobriamente. Dizia-se que os enredos eram formulaicos e repetitivos, para não falar nos personagens bidimensionais e diálogos engessados.


Mesmo que Burroughs não fosse considerado um escritor de talento, pode-se dizer que era um excelente contador de histórias. É a opinião, por exemplo, de Gore Vidal, que escreveu um artigo sobre o personagem para a Esquire. Apesar de apontar as diversas deficiências dos livros como trabalhos de ficção, ele elogia Burroughs por criar uma "convincente figura fictícia".


Ilustração de John Lockwood Kipling, pai do autor.
Outro livro sobre uma criança selvagem foi escrito por um contemporâneo de Burroughs: Rudyard Kipling. Em O Livro da Selva, Kipling relata tudo "que vi, ouvi ou sonhei sobre a selva indiana". Os contos que formam a coleção apresentam Mowgli, um menino criado por lobos. Seus melhores amigos são um urso chamado Baloo e uma pantera de nome Baghera.



Nos contos de Kipling, os Bandar-log são uma tribo de macacos (da espécie langur, mais especificamente) que fazem troça de tudo se gabam por não terem líderes nem chefes. Mowgli é sequestrado por eles e resgatado mais tarde por seus amigos. No fim, os Bandar-log até mesmo executam um hino da tribo, onde se vangloriam por terem "mãos extras" e caudas "no formato de um arco de cupido".


E, é claro, nossa lista de obras literárias sobre primatas ficaria incompleta se não mencionássemos o conto de Edgar Allan Poe, Os Assassinatos da Rua Morgue, lançado aqui pela L&PM. O problema é que, caso explicitássemos o papel do macaco no mistério desvendado pelo detetive Auguste Dupin, estragaríamos a supresa de quem ainda não teve a chance de ler a história. Então, basta dizer que há um orangotango envolvido. Se isso não despertar a sua curiosidade, sinceramente, não sabemos o que mais poderia.

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