quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Criação Literária: Marcelo Degrazia


E, com o perfil de Marcelo Degrazia, terminamos a série de textos sobre os finalistas da categoria Criação Literária do Prêmio Açorianos de Literatura 2011:

A primeira pessoa a ler um texto de Marcelo Degrazia foi sua tia Juracy. Ela morava na mesma casa dos pais do escritor e, à noite, antes de Marcelo e seus irmãos dormirem, lia histórias para eles, quase sempre Irmãos Grimm e Monteiro Lobato. Quando, aos 13, Marcelo escreveu um poema para uma namorada ("São as primeiras linhas de que tenho lembrança, tortas mesmo"), não houve dúvidas: tia Juracy tinha de dar sua opinião. Ela disse que o texto estava muito bom e encorajou o garoto a continuar escrevendo. Se alguém tivesse que apontar um responsável direto pela carreira literária de Degrazia, também não haveria dúvidas, e ele seria o primeiro a concordar.

Além de sua tia, é claro, Degrazia, 50 anos, credita a outras pessoas sua entrada no, segundo o próprio, "duro e complexo" ofício de escrever: Márcia Denser, Luiz Antonio de Assis Brasil e Léa Masina. Nas oficinas e aulas de alguns desses professores foi que Degrazia aprendeu as técnicas e procedimentos da literatura.

Após publicar contos em diversas coletâneas, ele estreou com a novela infanto-juvenil A Noite das Jaquetas-Pretas, sobre a violência entre torcedores de futebol. No ano passado, foi finalista do Prêmio Açorianos com os contos de O Juiz e o Papagaio. Também em 2010, recebeu o Prêmio Sesc pelo romance As Costelas de Eva.

Apesar de tantas publicações, ele ainda se considera um aprendiz. "Quanto mais aprendo, mais descubro que sei menos do que preciso e imaginava saber", afirma. Ao mesmo tempo, Degrazia não deixa de lado a ironia ao pensar sobre sua profissão: "Sou escritor, ou como dizem alguns colegas, tecnicamente desempregado". Os vinte anos em que trabalhou no comércio e em "cargos burocráticos" não passaram de "um desvio vocacional, embora nunca tenha deixado de ler e escrever nesse tempo todo."

Atualmente, Degrazia divide esse seu tempo de leitura entre Dostoiévski (O Duplo), Philip Roth (Nêmesis), Ford Maddox Ford (O Bom Soldado) e Toni Morrison (A Canção de Solomon). Mas suas preferências não deixam de ser, digamos assim, clássicas: seu autor favorito de todos os tempos é Machado de Assis; a Bíblia e Odisseia são os livros que jamais esqueceu.

Armadilha para Pedro, livro com o qual Degrazia está concorrendo a uma bolsa de R$10 mil e publicação pela Editora da Cidade, é um romance de formação, com forte inspiração autobiográfica. Narra como o protagonista toma consciência de seu lugar no mundo, na Porto Alegre do fim da ditadura militar. "Pedro procura a própria voz através do amor, da amizade e da compaixão", diz o autor. "Mas a violência e o erro embaçam a vocação e o engajamento".

A primeira versão do livro é de 1989. Ele já se encontra na sétima. E, apesar de tudo, Degrazia parece não estar muito nervoso com a perspectiva de premiação. "Se não publicar essa última versão, com certeza vêm outras por aí", avisa.

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