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4 de fevereiro de 2016

“BONDADE NUNCA É DEMAIS” !



- Dilmar Paixão –
(professor, escritor e poeta)

                O verso é por demais conhecido e se faz adequado para abrirmos as porteiras de mais um ano. Agora 2016. Tudo tão rápido e passageiro, quase a noção explícita de que somos peregrinos e vamos depressa como os segundos do tempo e a velocidade do vento. Aliás, a natureza tem mostrado motivos para reflexões bem importantes.
                Voltando ao verso do título “... bondade nunca é demais!”, pode-se afirmar que, nem mesmo o Teixeirinha, tinha em seus pensamentos a imagem de tanto sucesso que essa canção faria entre a juventude frequentadora de um ambiente musical diferente do nosso regionalismo gaúcho. Cantá-la, antes, nos estádios de futebol já foi uma vitória. Estar na boca do povo em diversas solenidades oficiais e da sociedade rio-grandense também.
É importante que se diga, pois, que não é por “bondade” que as pessoas entoam este tipo de hino “Querência Amada”. E a letra não é das mais fáceis, como a população massificada está acostumada a cantar, com conteúdos resumidíssimos e de apelo fácil. Pelo contrário. É melhor que se diga que é um fenômeno.
De um momento inicial, impulsionado por novos cantores em um grande canal de radiodifusão, essa composição tem se mantido contemporânea sem mais favores e escolhas midiáticas. Então, cante-se: “... bondade nunca é demais”! 
Há anos, o Planeta Atlântida tem um início oficial com o Hino Rio-Grandense, numa participação tradicionalizada pelo Neto, da família dos Fagundes do Alegrete. Uma merecida ocupação de espaços com qualidade, que projetou, desde muito tempo, integrantes da família que responderam, com sucesso significativo, às oportunidades surgidas. Darcy Fagundes, no Grande Rodeio Coringa e na arte da declamação, os irmãos Bagre e Antônio Augusto, o Dorotéo, o Neto, o Ernesto, o Paulinho e os demais, muitos que tenho o privilégio de listar entre os amigos.
Nos idos da 2ª Tertúlia Musical Nativista, em 1981, ainda na sede social e campestre da Associação Tradicionalista Estância do Minuano, no tempo em que Santa Maria era mais famosa por notícias boas, o Bagre e os seus filhos subiram ao palco e tomaram conta. Duvido que os Fagundes tivessem ideia da repercussão que os aguardava com o Canto Alegretense. Tanto que a mais popular daquele festival foi “O Bugio”, do Borges com letra do Prado Veppo. Conta-se que um renomado conjunto regionalista de fandangos preferiu não gravar a novel canção, porque não era costume saudar-se somente uma cidade, já que os grupos de baile animavam festas em inúmeros municípios pelos recantos do Estado e do país. O Guri de “Uruguaiana” que diga do seu sucesso interpretando versões do Canto do “Alegrete”. Méritos, portanto, e aplausos sempre.
Como pai de adolescente, agora universitário, com idade mínima para o Planeta, acompanhei, mais de perto, as festividades deste ano. Da minha experiência profissional na radiodifusão, transmitindo inúmeros eventos musicais pelo país, por raras vezes, observei em um mesmo espetáculo uma canção ser repetida - e na mesma noite. Mais: os intérpretes vieram de outros Estados da Federação Brasileira. E o povo presente demonstrou profundo conhecimento de toda a letra do Teixeirinha. Outra surpresa ainda: no outro dia, vi pela reportagem televisada, que um dos mais reconhecidos sambista daquela noite, intérprete dessa cantiga, confirmou a sua admiração pelas tradições gaúchas e dançou nosso folclore em invernada artística.
Registrar, isso, para a contemporaneidade ou recolher como mais uma prova da popularidade de Teixeirinha, como nosso principal cancioneiro a transportar a arte regional para o mundo, seriam objetivos corriqueiros. Por isso, prefiro recorrer ao verso que sublinhei no título desta manifestação para saudar o ano que se inicia e agradecer a Deus e aos nossos conviventes pela felicidade de estar, coexistir e interagir com bondade. Neste mundo, que há muito é de tanta pressa e desumanidade, sem tempo para o coração, como diria o poeta, conviver é muito mais do que uma necessidade e saber viver e conviver é um desafio sobremodo inegável.
A propósito, humanização é uma terminologia e um conceito que tem sido expresso, inclusive, em políticas públicas e sociais, no entanto, é uma prática mais discursista do que efetiva e eficaz. Sensibilidade é outra palavra integrante desse sentimentalismo racionalizado, onde o ter não deixa mais espaços para o ser e as pessoas, em plena era da comunicação e tecnologia que poderiam aproximá-las, preferem afastar-se das outras pessoas e de Deus. Hospitalidade é uma prática quase inexistente em nossos dias. Aliás, dias e noites.
Uma canção conhecida dos Irmãos Bertussi, chamada Oh de Casa!, historiou o período mais frequente de se demonstrar a hospitalidade: “... um lugar para pousar”. Se recorrermos à literatura poética do payador Jayme Caetano Braun, no seu livro De Fogão em Fogão, há toda uma poesia para definir a hospitalidade. A certa altura dos versos, ele profetiza que, até o índio mais xucro, à margem da vida em sociedade, “... cumpre a hospitalidade”. Se ainda vivêssemos esse tempo que foi descrito em sua real existência, por exemplo, não teríamos tantas banalidades em assaltos que vitimam pessoas inocentes, muitas vezes, por futilidades.
O verso do Teixeirinha é atual, atualizado, apropriado para esses tempos, neste novo ano que se inicia. Se pensarmos que “... bondade nunca é demais!”, poderemos conferir mais qualidade às nossas vidas e convivências, mais humanidades para os relacionamentos, mais amorosidade para o existir humano e social. É um pouco daquelas conversas que se tem nas rodas de mate sobre tradição, progresso e evolução. A tecnologia, mais do que teoria e estudos sobre técnicas, processos e métodos, como sempre se disse, é um mero conjunto de meios e instrumentos disponibilizados para facilitar e não afastar os seres humanos entre si. Entre os males desse último período sem luz, houve um tempo precioso para a convivência nas famílias com criatividade. Para algumas, coisa rara.
Pensando no tema da bondade e no ano estreado, vale uma prece final: “Oh Deus, tem misericórdia de nós e abençoa-nos! Trata-nos com bondade”. “O amor do Senhor Deus não se acaba, e a sua bondade não tem fim”(Lm:3,22). “A bondade é a colheita produzida pelas sementes que foram plantadas pelos que trabalham em favor da paz”(Tg:3,18). Que esta nova temporada seja de bondade entre todos nós, afinal, como a canção recomenda: “... bondade nunca é demais”!
Proseamos mais, de outra feita.
Partenon, 1º de fevereiro de 2016.