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2 de outubro de 2015

BLOG da Lili reativado, com trabalho da faculdade - "Tudo por um sonho" - DTG Lenço Colorado


VIA BLOG  ROGERIO BASTOS
Jovens abdicam de vida social para participar do maior festival de dança amadora da América Latina

Fim de noite e, enquanto milhares de jovens saem das faculdades da capital com destino as suas casas, outros tantos seguem um caminho diferente: O CTG.

São 23 horas e 12 pares se preparam para mais um ensaio. O objetivo é conquistar a classificação para a grande final do ENART – Encontro de Arte e Tradição – que acontece anualmente em Santa Cruz do Sul, no centro do estado, em meados de novembro.
Na construção deste sonho, os dançarinos do DTG – Departamento de Tradições Gaúchas – Lenço Colorado abrem mão de momentos em família, de compromissos sociais, dos amigos e, em alguns casos, até mesmo dos relacionamentos.
Reunidos no centro do palco, os jovens traçam metas e sonham com o domingo da final. Foram muitos desafios. A primeira etapa foi vencida com suor e lágrimas na fase regional. Na inter-regional, ocorrida no último final de semana em Venâncio Aires, a disputa foi ainda mais acirrada. "Dançamos com outros 22 grupos que almejavam essa vaga, somente 10 passaram. Em cada fase precisamos fazer nosso melhor. Esse é o nosso espírito colorado. Quando ninguém mais acredita, vamos lá e colocamos nossa alma e coração", afirmou o instrutor da invernada, Rinaldo Souto.
Começa o ensaio. No galpão, localizado junto ao Parque Gigante do Sport Club Internacional, o tablado ecoa os sapateios e sarandeios dos dançarinos enquanto o grupo musical canta o levante – introdução da dança - de uma tirana. Antes das 2 horas da manhã, ninguém descansa.

A temática da apresentação

Em cada edição do festival, um novo espetáculo temático é apresentado. Em 2013, uma das coreografias mais marcantes do DTG Lenço Colorado foi encenada. O grupo abordou o viés histórico das "mulheres guerreiras". Estancieiras, criadas e escravas que, pelas necessidades impostas pela guerra, aprenderam a empunhar armas na defesa de seu lar, enquanto os homens lutavam no decênio farroupilha. A pesquisa foi de Rogério Bastos e a coreografia de Robson Cavalheiro. A musica de Sonia Mara e João Lucas Cirne.
Com o passaporte carimbado para a semifinal, o grupo já trabalha na construção de um novo tema, mantido em segredo até a pré-estreia. "Já estamos com a pesquisa em mãos e esse ano pretendemos inovar. Vamos promover "spoilers" usando as redes sociais. Uma dica aqui, outra lá e os fãs do Lenço vão construir nosso enredo ainda antes de estrearmos", contou Franciele Guterres Santin Haubold, coordenadora da invernada adulta.

Assim como o contexto da coreografia, os trajes típicos também sofrem uma minuciosa pesquisa e retratam a época e a classe social que os dançarinos representam. Conforme Rinaldo, nenhum elemento é inserido na coreografia ou indumentária ao acaso. "Tudo precisa ser estudado para que não haja descontos na hora da apresentação. O tipo de tecido, as cores, os acessórios, a pilcha da prenda e do peão precisam ser condizentes com o que estamos coreografando na pista. Por isso, uma extensa pesquisa sobre o tema e os trajes é entregue à comissão avaliadora", relatou o instrutor.
O investimento financeiro também é alto. De acordo com Liliane Poitevin Sales, agregada das pilchas – responsável pelas finanças do grupo – cada traje pode custar mais de mil reais. "Nosso grupo se caracteriza pelo perfil de estancieiros. Em nossas coreografias resgatamos a história da nobreza gaúcha, por isso, nossas pilchas usam tecidos finos e muitos acessórios, o que acaba onerando o preço final", disse a agregada. A composição dos figurinos conta com vestidos, sapatilhas, anáguas – saia de armação, joias, botas, casacos, lenços, palas, ceroulas de crivo e bragas – espécie de calção de veludo até a altura dos joelhos e usado sobre as ceroulas que deixam os crivos (bordados) à mostra – elaborados conforme a temática da apresentação, mas com um detalhe: assim como a coreografia, os trajes não serão repetidos no ano seguinte.

Tradição em família

Abre a gaita e já nos primeiros acordes a pequena Bibiana Hikari Andrade Niiho, prenda mini-mirim da entidade, abre a saia rodada e começa a sarandear. Ela tem apenas 5 anos e cresceu dentro do galpão. A mãe Laurelisa Andrade e o pai Kazuhico Niiho, dançavam na invernada até 2014. Hoje, a pequena acompanha a dinda Carlisa Andrade, que apesar da ruptura em um tendão do pé direito por causa da dança, só aguarda a liberação do médico para voltar ao tablado.

O tradicionalismo está no sangue e no nome. Apesar da origem oriental – o pai é descendente de japoneses – a menina foi batizada de Bibiana, referência à personagem do livro "O tempo e o Vento" de Érico Veríssimo. Apaixonada pelas danças, Bibiana conhece, uma a uma, as coreografias do grupo e imita, do lado de fora do tablado, os passos das dançarinas.

Vestida de prenda com um dos modelos da invernada, especialmente feito para ela, e ostentando a faixa de Bonequinha do DTG, Mirella de Oliveira Souza, de apenas 3 anos, acompanha a mãe nos ensaios. Filha de Cristina de Oliveira Gonçalves, que participa do grupo desde 2004, e Leandro Souza, a menina praticamente nasceu no Lenço Colorado.

Outro caso de tradição em família é o da pequena Giovanna Laroca Melo do Nascimento, de 5 meses. Os pais, Gisele Laroca da Silva e Dobrasil Renato Melo do Nascimeto não dançam, mas como patrões da entidade, acompanham todos os ensaios. "É bonito de ver. Temos várias crianças que vem com os pais nos ensaios e a Giovanna adora. Basta começar a música e ela já bate as mãozinhas", contou a mãe.

Liliane vai além na sua relação com a invernada. Ela conta que os filhos não dançam mais, mas mesmo assim, continua trabalhando em prol do grupo. "Sinto como se eu tivesse uma missão junto ao Lenço e a esses jovens. Quando eu cheguei, eles eram todos adolescentes. Hoje são adultos, cada um com sua vida, mas com um sonho em comum. Um sonho que eu sonho com eles a cada ano. Não é fácil. Temos imensas dificuldades financeiras e pessoais, brigamos, discutimos e nos arrependemos, mas o bom de estar aqui é que, juntos, formamos uma família. A família Lenço Colorado".

Um amor para toda a vida

Juciandro de Oliveira, 42 anos, é casado com Fabiana Grassi, a quem conheceu dançando em invernada e com quem divide os tablados nos rodeios e festivais. O vendedor, que dança há mais de 25 anos, já passou por CTGs como o extinto Estância Farroupilha, pelo CTG Lanceiros da Zona Sul e hoje, aposta no Departamento de Tradições Gaúchas do Sport Club Internacional, o Lenço Colorado.

Depois de um quarto de século de dedicação à dança, Juciandro e Fabiana decidiram que era chegado o momento de largar o grupo. Ensaios longos que adentravam madrugada, compromissos profissionais e principalmente pouco tempo para o filho foram fatores determinantes na decisão. Mesmo quando o pequeno Gustavo, 10 anos, os acompanhava nos ensaios e rodeios, faltava o momento lúdico das brincadeiras. Percebiam a infância do filho de esvaindo nas veias do tempo sem aproveitá-la. Decisão tomada, comunicaram os demais integrantes da invernada que estavam se "aposentando".

Entretanto, a coceira nos pés não deixou o casal sossegado. Pouco mais de um mês depois da saída, resolveram, por curiosidade, assistir a um dos ensaios de preparação para a inter-regional. A paixão falou mais alto. O coração bateu mais forte e como sempre, unidos, decidiram retornar. "Não resistimos. Isso é uma cachaça, vicia. Vi o grupo e pensei... Vou dançar só mais esse ENART", conta Juciandro. De "só mais esse", Juciandro e Fabiana seguem colocando nas apresentações, toda a experiência e amor pela dança gaúcha, acumulados ao longo de quase uma vida.

Classificados para a grande final em Santa Cruz do Sul, Juciandro e Fabi são só sorrisos. Unidos em todos os momentos, de crise ou alegria, o casal comemora a conquista e afirma que para a felicidade ser completa só falta ficar entre os 5. "Daí, danço mais uns 5 ENART's", afirmou Juciandro. O DTG Lenço Colorado torce por isso!