Postagem em destaque

Justiça cassa mandato do Conselho Municipal de Cultura de Porto Alegre

A decisão do juiz José Antonio Coitinho, titular da 2ª Vara da Fazenda Pública de Porto Alegre, em Mandado de Segurança impetrado p...

6 de abril de 2015

HOMENAGEM COM SENSIBILIDADE


Durante a semana de aniversário da cidade, a Porto Alegre Cia. de Dança, idealizada e mantida pela persistência de Tânia Bauman, com o patrocínio da Secretaria de Estado da Cultura, trouxe ao palco da sala Bruno Kiefer, da Casa de Cultura Mário Quintana, o espetáculo As únicas coisas eternas são as nuvens. Trata-se de um criativo espetáculo assinado pelo coreógrafo paulista João Butoh, a partir da poesia de Mario Quintana: nada mais oportuno, pois, que o espetáculo ocorresse naquele espaço que foi, durante muito tempo, a casa do poeta da Rua dos Cataventos. A coreografia de João Butoh apresentou uma proposta diferente e relativamente ousada. Como o sobrenome do artista indica, o coreógrafo inspirou-se na estética do butoh, dança que surgiu no pós-guerra, no Japão, mesclando a tradição nipônica com as novas linhas de criação do ocidente, especialmente da Europa. A criação que resulta desta mescla distancia-se do forte simbolismo da arte tradicional japonesa para buscar a individualidade. Como ela não é, contudo, individualizada, torna-se como uma máscara universal, representando sentimentos e experiências humanas que, embora individuais, tornam-se universais.

A concepção do espetáculo é extremamente criativa: o coreógrafo, que assina também o figurino e a cenografia tendo o auxílio de Maurício Moura e Fabrício Simões para a criação da iluminação - o que, neste caso, tornou-se fundamental - mistura, na trilha sonora, composições eruditas com a tradição da modinha e a música popular brasileira e trilhas sonoras de filmes, especialmente os musicais norte-americanos. Ao mesmo tempo, localizou e utiliza antigos discos em que o próprio poeta gravou sua obra: mesmo que consideremos que Quintana certamente não será o melhor intérprete de seus poemas, é evidente que o valor emotivo de termos sua voz ao longo de todo um espetáculo é profundamente impactante e emocionante. Ao mesmo tempo, o coreógrafo idealizou um ambiente marcadamente branco - onírico - que reflete fortemente a poesia de Quintana, com certa nostalgia que talvez nem sempre seja a minha melhor leitura dos poemas, mas que é uma possibilidade de leitura de sua obra.

Embora anunciados no programa seis bailarinos, tivemos apenas cinco deles: não sei em que isso pode prejudicar o espetáculo, mas não cheguei a sentir falta deste sexto nome divulgado, mas ausente. Cada intérprete, embora faça parte de um conjunto, guarda sua individualidade, o que se traduz em movimentos que, muitas vezes, se diferenciam todos entre si, embora sem pretender fugir de um ritmo maior, coletivo. Com uma maquiagem muito expressiva - pena que não se identifique no programa o responsável pela mesma - e movimentos que remetem imediatamente às coreografias das mais tradicionais encenações japonesas, como o kabuki, o butoh, surgido na década de 1950, exige extrema qualificação do intérprete: ao contrário do espetáculo japonês, em que a maquiagem se transforma em máscara que simboliza sentimentos, a maquiagem do butoh não cobre inteiramente o rosto do intérprete, de modo que cada bailarino expressa-se de maneira pessoal, ainda que deva atender a uma orientação mais geral e coletiva. Tal escolha, evidentemente, foi mais do que oportuna para trazer a poesia de Mario Quintana ao palco, sobretudo em se tratando da semana daquela cidade que o poeta tão bem sentiu e traduziu em sua obra.

O resultado, num espetáculo de cerca de uma hora de duração, foi, sobretudo, de apresentação e aproximação. O coreógrafo evidenciou tripla sensibilidade: na escolha do tema, na seleção dos poemas e, enfim, na criação coreográfica. Aqui, interessa menos se a gente gostou mais ou gostei menos (eu gostei muito), mas o espectador deve deixar-se levar pelo que lhe é apresentado no palco, sem buscar racionalizar, mas sim, sentir o que está a assistir.

É lamentável, apenas, que pouca gente tenha ido à estreia: nem secretários de Cultura (municipal ou estadual) nem prefeito... Pessoalmente, como um simples cidadão, curti, me emocionei (matando saudades da voz de Quintana, visualizando seus poemas, admirando os movimentos sensíveis mas seguros dos bailarinos). Foi um bom momento na ribalta porto-alegrense. Azar de quem não foi.