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12 de fevereiro de 2014

A grande oportunidade audiovisual


Para quem está envolvido profissionalmente nas indústrias culturais, em especial no setor audiovisual, o Brasil está oferecendo oportunidades únicas, graças ao novo marco regulamentário junto com um crescimento do mercado que praticamente não tem precedentes em nenhum outro país do mundo nesses dias. Vamos ver o que é que está acontecendo e quais podem ser as previsões para esse setor nos próximos anos.
O lançamento no mercado
O consumo de produtos audiovisuais, como a indústria cultural dirigida ao lazer, é um magnifico termômetro para testar os níveis de consumo privado.
Embora o crescimento do Produto Interno Bruto do Brasil tenha diminuído nos últimos dois anos de forma muito significativa – até chegar em 2012 com um aumento de apenas 0,9% e uma previsão para 2013 de um aumento do 2,5% –, outro índice continua com taxas extremamente favoráveis: o crescimento do consumo. Graças ao aumento da renda, do emprego e do crédito, o consumo das famílias constata um crescimento sustentado desde 2004, com um aumento de 3,1% em 2012 e 2,3% em 2013, contribuindo significativamente para sustentar o crescimento do PIB e, portanto, compensando assim a estagnação do setor industrial.
Prestes a chegar a 200 milhões de habitantes, o Brasil vem realizando, na última década, um enorme esforço para conseguir uma redução gradual da desigualdade. Isso se traduz, principalmente, na consolidação da classe média do país. Os dados demonstram que o componente aspiracional deste processo traz como consequência um rápido acesso aos produtos de entretenimento e lazer, em paralelo com o aumento da renda. Isso explicaria o aumento significativo dos produtos do setor audiovisual nos últimos anos.
O Brasil tem apenas 2.730 salas (para que sirva de referência, a Espanha, com menos de um quinto da população, possui cerca de 4.000 salas) e o aumento de espectadores cresceu mais de 60% nos últimos cinco anos, passando de 89,1 milhões de ingressos de cinema vendidos em 2008 para 147,9 milhões em 2012 e uma previsão de 149,5 milhões até o final de 2013, segundo dados publicados pelo Ancine. No caso de box office, o aumento é ainda maior (devido à alta inflação, o verdadeiro flagelo deste país) e supera os 100%, passando de R$ 727 milhões em 2008 para R$ 1.552 milhões em 2012. Grande negócio para exibidores e distribuidores de filmes.
grafico 1                                    Fonte Filme B
grafico2                                    Fonte Filme B
A respeito da televisão, em praticamente todos os países da América o modelo básico de transmissão tem sido tradicionalmente dominado por canais de TV por assinatura, com uma televisão de acesso livre menos desenvolvida em comparação, por exemplo, com os canais públicos europeus. Porém, a televisão aberta no Brasil era até recentemente um monopólio virtual do grupo de TV Globo, setor que era concorrido por apenas mais quatro operadores (que, juntos, dificilmente chegavam a 50% da quota de audiência), com um mercado de TV paga praticamente inexistente.
Tudo isso mudou drasticamente desde 2004, com a entrada de novos operadores internacionais no país e precisamente quando a ascensão da nova classe C passou a se tornar uma realidade e a ter um impacto direto na TV por assinatura como um produto, convertendo o decodificador em um eletrodoméstico imprescindível em cada vez mais casas. Se até 2004 a contratação de televisão paga estava praticamente estagnada, desde então tem registrado um crescimento espetacular, com uma absoluta explosão nos últimos três anos, com taxas de crescimento anuais no número de assinantes de cerca de 30% em 2011 e 2012 e de 17% em 2013. A decolagem definitiva ocorreu em 2011, quando o faturamento anual do setor de TV por assinatura ultrapassou a da televisão aberta.
O número de assinantes da TV paga alcançou 17 milhões de famílias e a previsão feita pelos próprios representantes do setor é que até 2017 o número deverá se aproximar (ou mesmo superar) os 40 milhões de casas. Isto é, uma taxa de mais de 60% de abrangência.
Na última década, o Brasil estendeu a mão para a entrada dos grandes players internacionais e aos conteúdos produzidos pelas majors. Com o enorme crescimento do mercado na indústria audiovisual – especialmente na TV paga –, o país aprovou uma lei, em vigor desde Setembro de 2012, para tentar que parte do bolo de benefícios desta crescente torta sirva para o desenvolvimento de sua indústria de produção audiovisual nacional. A lei é a nº 12.485.
grafico 3                                    Fonte: ABTA
grafico 4                                    Fonte: ABTA
A grande mudança da Lei 12.485
A grande mudança no setor audiovisual brasileiro está contando com a implementação da recente Lei 12.485, que regula a TV paga no país e que, sem dúvida, abre espaço para a participação estratégica do setor da produção audiovisual independente. Essa lei impõe aos canais da TV paga uma cota de emissão de produções nacionais brasileiras, incluindo um percentual para produtores independentes. Mesmo que a lei seja ainda muito recente, os seus efeitos já começaram a ser experimentados.
A análise de seus artigos nos permite fazer algumas projeções que levam a pensar que, se tudo seguir o caminho proposto, o Brasil poderá tornar-se uma verdadeira potência de produção audiovisual a nível mundial nos próximos 10 anos.
Até a promulgação desta norma, o Brasil não contava com um volume significativamente grande de produção audiovisual. No caso de produtos de ficção, nos referimos a uma média que, com incrementos sucessivos, chegou até 80 produções cinematográficas anualmente. Mas no ano 2013, o ANCINE já anunciou uma mudança significativa, com uma previsão de 136 filmes a serem lançados no ano 2014.
Quanto à ficção televisiva, mais uma vez devemos nos ater ao que é produzido pelo grupo TV Globo, com telenovelas e praticamente ausência de minisséries e filmes para TV no horário nobre. Além disso, a animação é um setor que ainda está para começar quase do zero.
Desta forma, não se pode dizer que o Brasil tinha um setor de produção audiovisual que pudesse ser considerado uma “indústria” propriamente dita. Apenas meia dúzia de empresas audiovisuais independentes contavam, até agora, com um volume significativo de produção. Todas elas nasceram de forma similar, como produtoras cinematográficas e/ou publicitárias (setor, este último, de ampla visibilidade e reputação no país). Só algumas delas, há alguns anos, foram capazes de se antecipar e de criar nesse momento um pequeno departamento de conteúdos para televisão. Agora elas estão se tornando agentes indispensáveis para o setor e esta linha de produção para televisão claramente vai gerar as maiores alegrias no desempenho dos resultados nos próximos anos .
Segundo a ANCINE, “na área da produção para a TV o crescimento é o mais evidente. Ainda por conta dos reflexos da entrada em vigor da Lei 12.485/2011, que alavancou fortemente a produção e veiculação de conteúdos brasileiros na TV por assinatura, a explosão dos números de emissões de CRTs (Certificado de Registro de Título) pela ANCINE para o segmento servem como um bom indicativo da movimentação acelerada do setor. Apenas nos três primeiros semestres do ano foram emitidos 2.337 certificados, contra 1.059 em todo o ano de 2012 e apenas 761 no ano anterior, quando a lei ainda não estava em vigor. O volume de CPBs para obras seriadas também aumentou exponencialmente: foram 823 em 2013, contra 315 em 2012 e 200 em 2011”.
*Continua na próxima semana
**Carlos Cuadros estará no Cemec nos dias 12 e 13 de abril para o curso Gestão de Projetos Culturais. Saiba mais clicando aqui.