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6 de fevereiro de 2014

Carnaval de rua da Cidade Baixa, em Porto Alegre, começa neste sábado


Serão nove dias de folia comandados por 14 blocos de diferentes estilos e ritmos


Carnaval de rua da Cidade Baixa, em Porto Alegre, começa neste sábado Bruno Alencastro/Agencia RBS
Integrantes dos blocos de rua reunidos antes do início da maior programação carnavalesca da Cidade Baixa Foto: Bruno Alencastro / Agencia RBS
Cidade Baixa maravilhosa, cheia de encantos mil, coração da minha Porto Alegre. A paródia com o hino carioca escrito em 1934 pelo compositor André Filho não existe oficialmente, mas bem que poderia ser adaptada à realidade do bairro mais sambista da Capital. Os organizadores descartam as comparações com o Rio de Janeiro, mas a região está, enfim, se aproximando dos fluminenses no quesito blocos de Carnaval.

Se em 2013 o evento foi grande, em 2014 a promessa é de que será enorme. Os mais de 84 mil foliões que saíram às ruas no ano passado devem repetir o sucesso e agregar o dobro de pessoas ao som de marchinhas e em meio a confetes e serpentinas a partir do próximo sábado até dia 15 de março. Serão 14 blocos e uma diversidade imensa de ritmos e tribos fomentadas por um incentivo a mais nesse Carnaval: uma parceria público-privada que incrementa a estrutura dos cortejos.

O investimento da prefeitura, por meio da Secretaria Municipal da Juventude, é de R$ 200 mil no circuito da Cidade Baixa — mais de 30 vezes inferior à verba de R$ 6,7 milhões disponibilizada para o desfile das escolas de samba no Porto Seco. Neste ano, os blocos do circuito receberão o pagamento de cachê pela participação. Já equipamentos como carro de som, cadastramento de ambulantes, distribuição de brindes, serviços de segurança e limpeza privados e banheiros químicos estão garantidos por um patrocinador privado do evento. À frente da organização, o coordenador da associação Cidade Baixa Em Alta, Tiago Faccio, já ouviu relatos até mesmo de excursões do Interior se organizando para a folia. O objetivo é, sem dúvidas, agradar do pagodeiro ao roqueiro.

— Os blocos do bairro já costumam sair de qualquer maneira, então não estamos fazendo nada mais do que dar o mínimo de estrutura necessária, e, com isso, aumentar cada vez mais a participação do público nos eventos. Como é um grupo bem diversificado de blocos, desde um tradicionalíssimo que existe há mais de 20 anos a outro que transforma rock'n'roll e samba, acabamos agradando desde o fã saudosista do Carnaval até aquele que nunca teve contato — avalia Faccio.

A saída dos blocos não chega a ser novidade, mas a chamada profissionalização, sim. Em meio ao fenômeno de retomada da folia de rua na Capital, passaram a pipocar nos últimos anos novos grupos bairro afora. Sintoma disso é que, somente em 2014, cinco blocos fazem suas estreias na avenida: Bloco do Isopor, Império da Lã, Filhos do Cumpadi Washington, Skafolia e Ziriguidum Batucada Social Clube. Maria do Bairro, o primeiro grupo do chamado recomeço do movimento, nasceu há sete anos e, em 2013, arrastou 25 mil foliões à Rua Sofia Veloso.

— Em 2007, Porto Alegre tinha apenas atividades carnavalescas espetaculares, no sentido do espetáculo, mas sem nenhuma atividade que eu pudesse espontaneamente me envolver. Tivemos a ideia de criar o bloco e invadir a rua com uma bateria e marchinhas de Carnaval, chamando os vizinhos, os idosos e as crianças para brincar. Assim surgiu o Maria do Bairro: uma necessidade intrínseca de nos divertirmos e sermos felizes em uma cidade que nos oprimia e não apresentava nada para desopilarmos — sintetiza o carnavalesco Zeca Brito, um dos fundadores.


Longe dos desfiles oficiais, comunidade faz festa na rua
A espontaneidade do Carnaval de rua marcou época em Porto Alegre até a década de 1970, com blocos humorísticos como o Passa Fome e Anda Gordo e o Tira o Dedo do Pudim.

— Os nomes eram jocosos, criativos, e as pessoas iam não só para se divertir, mas também para chocar. Eles eram carregados de crítica política — recorda o comentarista de Carnaval e comunicador do Grupo RBS, Cláudio Brito.

Foi a organização dos desfiles de escolas de samba de Porto Alegre aos moldes do Rio de Janeiro, inaugurada pela Academia de Samba Praiana, que minguou as saídas de blocos e encandeceu o debate entre o Carnaval considerado espetáculo e aquele batizado de participação. Mas folião que é folião não deixa o samba morrer e, no final dos anos 1970, Waldemar de Moura Lima, o Pernambuco, ressuscitou a tradição já esquecida com a criação da Banda DK. A partir daí, outras começaram a surgir.

— Pensamos em criar um espaço onde essas bandas, pelo seu espírito anárquico, pudessem vir, desfilar e brincar. Então nasceu a Rua do Perdão, porque entendemos que uma pessoa que durante todo o ano passa por muito sacrifício e muita luta e se predispõe a cantar, brincar, sorrir e dividir a sua alegria com o outro... essa pessoa perdoou as violências que foram feitas contra ela — reflete Pernambuco.

Mais de 30 anos depois, a transferência dos desfiles das escolas de samba para o Porto Seco é um dos sintomas apontados pela explosão de novos blocos e ressurgimento dos antigos. Exemplo disso é o Areal do Futuro, projeto carnavalesco envolvendo crianças criado em um dos berços do samba na Capital — o Areal da Baronesa — após as dificuldades dos carnavalescos da comunidade em levar a escola Integração do Areal da Baronesa até os desfiles na Zona Norte.

— O Carnaval virou hoje muito comercial, se profissionalizou de uma forma tão efetiva que a essência do samba deixou de existir. Então resolvemos ir para uma outra linha em que conseguimos desfilar com alegria, descontração, sem o compromisso e a rigidez que as escolas de samba praticam — completa Julio Ducena, o Mestrinho, criador do bloco Panela do Samba.


Ordem para garantir o apoio da vizinhança
Incomodados com a folia extravasada na forma de brigas e falta de educação, alguns moradores da Cidade Baixa costumam entoar reclamações nos dias de saída dos blocos. Lixo espalhado pelas vias e a transformação das ruas em banheiros ao ar livre são alguns dos pontos de protesto. Neste ano, organizadores trabalham para minimizar os efeitos negativos da festa.

Uma das medidas a serem adotadas é a instalação de gradis nos meios-fios para permitir a livre passagem dos moradores nas calçadas. A colocação de mais do que o dobro de banheiros químicos (em 2013 foram 10, neste ano a promessa é de que serão pelo menos 30) e a dispersão dos blocos no Largo Zumbi dos Palmares para evitar que a barulheira se estenda no bairro são outras estratégias adotadas.

Mas a percepção dos carnavalescos é de que a comunidade vai se sensibilizando com o movimento. É o caso de Hermógenes de Oliveira Junior, morador da Rua Sarmento Leite e crítico ferrenho dos bares que descumprem os horários impostos por lei.

— Os blocos não costumam passar da meia noite. Então, quanto à brincadeira, não tenho nada contra. Claro que alguns se excedem, bebem demais e, depois que terminou o bloco, ainda querem fazer um bloco extra e fazem algazarra nas ruas. Mas, o evento em si não incomoda — relata.

O Maria do Bairro, por exemplo, tem como um dos seus maiores apoiadores um residencial geriátrico localizado na Rua Sofia Veloso — que, segundo o proprietário, Fabiano Bormann, se transforma em um camarote durante a festa. Até mesmo um bloco, intitulado de Sasarico da Melhor, foi criado para envolver os idosos que se vestem a rigor para o evento.

— É engraçado porque eles se identificam com o tempo que ainda podiam pular atrás do bloco. É uma forma de nossos hóspedes reviverem o Carnaval antigo e que vem sendo resgatado em Porto Alegre — explica Bormann.

Integrantes do bloco Galo de Porto recordam que, antes de uma saída da banda na Rua Lima e Silva, uma senhora abriu a porta de casa para pedir o fim da barulheira. Um policial militar que controlava a movimentação brandou:

— Minha senhora, está tudo autorizado. Estamos aqui para proteger o bloco e os foliões. Então, divirta-se!

— Ele realmente teve muita presença de espírito — finaliza Luís Oliveira, um dos organizadores do bloco.
Confira a programação completa*

* Todos os dias, a festa na rua será das 16h às 22h. A saída da maioria dos blocos será na Rua João Alfredo, esquina com a Lopo Gonçalves — à exceção dos blocos Maria do Bairro, Galo de Porto, B
PROGRAMAÇÃO:

8 de Fevereiro, 2014

Panela do Samba

Oriundos do Carnaval espetáculo, os carnavalescos do Panela do Samba decidiram, em 2012, participar, também, da folia de rua e criaram o bloco. Se em 2013 acumularam 6 mil participantes no circuito dos blocos, em 2014 prometem atrair muito mais gente. A referência do grupo é o samba de raiz.

9 de Fevereiro, 2014

Areal do Futuro

Em 2003, após a saída da escola Integração do Areal da Baronesa dos desfiles do Carnaval de Porto Alegre cidade, moradores da comunidade localizado no bairro Menino Deus decidiram não deixar o ritmo morrer na travessa onde vivem. Nasceu, assim, o Areal do Futuro — do qual participam 60 crianças da comunidade. O tema do cortejo deste ano é Paz, Carnaval e Futebol.

15 de Fevereiro, 2014

Galo de Porto

— Costumamos dizer que o gaúcho, quando sai do Estado, monta um CTG. Já o pernambucano, quando sai de lá, monta um bloco de Carnaval — resume um dos fundadores do Galo de Porto, Luís Fernando Oliveira. Fundado em 2011 por uma turma de amigos pernambucanos radicados em Porto Alegre, o bloco entoa o ritmo oriundo da sua terra natal: o frevo. A saída será na Joaquim Nabuco, passando pela Lima e Silva e finalizando no Largo Zumbi dos Palmares.

16 de Fevereiro, 2014

Filhos do Cumpadi Washington

Estreantes no Carnaval de rua, os integrantes da banda de pagode Constelação criaram o bloco cujo nome faz alusão a um dos cantores do já extinto grupo baiano É o Tchan!. A folia abrirá ao som de pagode dos anos 1990, desde Molejo a Negritude e Junior, passando por Só Pra Contrarir e, nos últimos 40 minutos, axé.

16 de Fevereiro, 2014

Do Jeito Que Tá Vai

Durante a discussão para eleger o nome do bloco formado por um grupo de amigos de infância, um deles disse: "Não se importem com isso. Do jeito que tá vai". A partir daí, o nome pegou. A fundação foi em 2010 e, entre integrantes estão participantes e simpatizantes das escolas de samba de Porto Alegre — e é esse o conceito mantido pelos carnavalescos. Sambas-enredos históricos de escolas de Porto Alegre e Rio de Janeiro compõem 90% do repertório do bloco.

22 de Fevereiro, 2014

Maria do Bairro

Sucesso inquestionável — em 2013, arrastaram mais de 25 mil pessoas na Rua Sofia Veloso — o Maria do Bairro é uma das atrações mais aguardadas do Carnaval de rua. A espontaneidade característica do bloco é um dos motivos apontados pelos organizadores pela arrecadação de uma verdadeira multidão Cidade Baixa afora. Criado em 2007, foi o primeiro bloco da chamada retomada do movimento de rua na Capital. Após a concentração na Sofia Veloso, o grupo seguirá pela Rua Lima e Silva.

23 de Fevereiro, 2014

Bloco Império da Lã

Lançada em 2009, a Império da Lã — uma compilação de músicos gaúchos que criaram a banda paralelamente aos seus trabalhos artísticos — sai pela primeira vez no formato de bloco de Carnaval. Os músicos da Cartolas, Dingo Bells, Bidê ou Balde, Dharma Lovers, Groove James e The Brothers Orchestra apresentarão um repertório rock — mas no ritmo de marchinhas. Músicas de Frank Sinatra, Beatles, Tim Maia e Stevie Wonder e Jorge Ben Jor já estão confirmadas na lista.

23 de Fevereiro, 2014

Skafolia

Faz quase cinco anos que os integrantes da banda Chimarruts criaram um grupo paralelo, o Skafolia, especializado no ritmo ska. Habituados a tocar em festas e casas noturnas, em 2014 estreiam no Carnaval de blocos da Cidade Baixa. O repertório fica por conta de marchinas, desde Mamãe Eu Quero e Cachaça Não É Água, na batida do ska.

1 de Março, 2014

Banda DK

A banda formada no final dos anos 1970 por Waldemar de Moura Lima, o Pernambuco, sobrevive nos dias de hoje. No sábado de Carnaval, aqueles que não debandaram rumo ao Litoral poderão curtir uma festa anárquica, como intitula o próprio organizador. A concentração será em frente ao Teatro de Câmara Túlio Piva, no número 575 da Rua da República. Ao longo da tarde, o bloco deve seguir rumo à Lima e Silva.

2 de Março, 2014

Bloco do Isopor

Fundado na informalidade há mais de 20 anos, mas registrado oficialmente como bloco de Carnaval apenas em 2014, o Bloco do Isopor é fruto da reunião de um grupo de amigos. Os sambistas costumam se reunir a bateria e o cavaquinho na esquina da via com a Travessa dos Venezianos e agora vão mostrar aos porto-alegrenses o seu ritmo. A concentração começa às 16h, e, por volta das 18h30min, o grupo sairá da Joaquim Nabuco rumo ao Largo Zumbi dos Palmares.

4 de Março, 2014

Rua do Perdão

Mais uma vez, Pernambuco colocará o bloco na rua — mas, na véspera da Quarta-feira de Cinzas, a criançada será a dona da festa. A Rua do Perdão — espaço criado por volta de 1977 para reunir as diversas bandas de Carnaval que se multiplicavam na cidade — terá um baile infantil a partir das 16h, também em frente ao Teatro de Câmara Túlio Piva. Detalhe é que a Rua do Perdão não costuma sair em desfile pelo bairro. Na hora que os pequenos vão dormir, os mais velhos tomarão conta do espaço.

8 de Março, 2014

Ziriguidum Batucada Social Clube

Em junho de 2013, integrantes de outros blocos da Capital desvincularam-se para criar o Ziriguidum Batucada Social Clube. Apesar de já caírem no samba desde outros carnavais, os participantes estreiam com a formação do novo grupo no dia 8 de março. Seguindo moldes cariocas, o Ziriguidum trabalha em três seguimentos: o bloco de rua, um grupo show e uma oficina de percussão.

15 de Março, 2014

Peregrinos do Samba

Projeto da Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc), o bloco é formado por moradores de rua atendidos nos albergues e abrigos do município. Serão cerca de 150 integrantes desfilando no dia 15 de março e fazendo o encerramento do circuito dos blocos. Um dos objetivos da iniciativa é dar visibilidade à população em situação de rua, reforçando o conceito de cidadania trabalhado nas oficinas culturais ministrada pelos técnicos da Fasc.

15 de Março, 2014

Turucutá

A Turucutá Batucada Coletiva Independente nasceu em 2008 quando participantes de uma oficina de Carnaval decidiram criar seu próprio grupo de batucada. Este será o sexto ano que o grupo sairá no Carnaval de rua da Cidade Baixa. Em 2013, a estimativa é de que 15 a 20 mil foliões participaram do bloco. Apresentando um repertório composto por diferentes ritmos nacionais e internacionais, como rock, funk e, claro, samba, a Turucutá encerrará as saídas carnavalescas no bairro.



E MAIS OUTROS