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22 de agosto de 2015

Regionalistas debatem qualidade musical dos festivais

VIA ZERO HORA:

Coluna de Juarez Fonseca reacendeu discussão sobre a música regional

Por: Alexandre Lucchese
22/08/2015 - 05h02min
Regionalistas debatem qualidade musical dos festivais Eduardo Rocha/Divulgação
Foto: Eduardo Rocha / Divulgação


A semana foi de certa instabilidade no Rio Grande do Sul. E não apenas pela temperatura que teve viradas bruscas ao longo dos dias: os ânimos tradicionalistas se mantiveram exaltados. As redes sociais se tornaram um fórum de discussão sobre a música nativista desde o sábado passado, quando o jornalista e crítico musical Juarez Fonseca publicou em sua coluna no 2º Caderno um texto no qual defende que a qualidade artística dos festivais de música regional "havia despencado" desde o final dos anos 1980. Enquanto alguns concordaram e se solidarizaram ao argumento, outros exigiram que o colunista se retratasse.
Em seu blog, o compositor Caine Teixeira Garcia escreveu: "(Juarez Fonseca) ignora a importância que esses eventos têm para nossa formação social, cultural e econômica". Já o músico Luiz Carlos Borges disse no Facebook: "Acho que o Juarez Fonseca, em boa hora, escreveu algo que já se esperava há mais tempo".
Além de gerar polêmica, o texto reacendeu uma discussão levantada em outras ocasiões. Em 1991, por exemplo, o cantor e compositor Silvio Aymone Genro levou a canção Pelas Cidades de Lona para concorrer na Califórnia da Canção Nativa. Vestido de palhaço em um dos palcos mais emblemáticos dos festivais, cantou versos como "Hoje os festivais de chatice nativa são tudo uma mesmice só / onde o que cantamos de novo é mais velho que a minha vó". A provocação gerou algumas vaias, mas também aplausos.
_ Fui mais criticado por parte de alguns colegas músicos. Mas o povo em geral gostou _ lembra Genro.
Para avançar no debate sobre a situação dos festivais e a qualidade das músicas, ZH ouviu músicos, jurados e outros envolvidos com o tema.
Qualidade musical
Jornalista que cobriu o surgimento dos grandes festivais de música regional, Juarez Fonseca foi jurado de edições recentes de encontros como Tertúlia Musical Nativista (Santa Maria), Canto dos Cardeais (Canguçu), Tafona da Canção Nativa (Osório) e Califórnia da Canção Nativa (Uruguaiana). Ele avalia que, apesar de muitos bons artistas terem surgido nos últimos 25 anos, a qualidade geral das composições apresentadas nos eventos está mais baixa:
– Depois do sucesso dos festivais, muita gente resolveu entrar na música, alguns usando fórmulas prontas, que já tinham dado certo. Temos ótimos letristas, mas letras ruins ainda derrubam muita gente, como músicas que insistem em falar de cavalo ou de exaltar o tempo todo o Rio Grande do Sul.
Presidente do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (IGTF), Vinícius Brum compartilhou a coluna de Juarez no Facebook. Segundo ele, a divulgação foi um modo de "estimular um debate importante". No entanto, Brum questiona a argumentação de que as composições tenham piorado.
– Essa discussão é difícil porque, às vezes, pode ser levada para o gosto pessoal, mas não vejo uma piora. E não é coibindo repetições que se vai chegar a uma boa canção. Restringir ou ampliar os temas é algo estéril, com o qual o bom compositor não deve se importar – diz Brum.
Músico e jurado de festivais, Edilberto Bérgamo também vê com bons olhos a produção atual, mas percebe que os regionalistas poderiam ter uma postura mais atenta ao inscreverem suas músicas:
– Às vezes, alguns músicos não leem os regulamentos antes de enviar as músicas. Há festivais que privilegiam composições campeiras, enquanto outros são mais abertos. Além disso, ter uma música fora das selecionadas poderia ser encarado como um estímulo para melhorar o trabalho – diz.
Ao longo da reportagem, outros músicos ouvidos disseram concordar com a avaliação de Juarez, mas preferiram não se identificar.
Novos clássicos
Na coluna publicada no último sábado, Juarez Fonseca afirma que, a cada 500 músicas recebidas para triagem de alguns festivais, há "raramente alguma muito boa" e "ótima, nem pensar". Já o radialista Jairo Reis, que há 20 anos trabalha com música regionalista, avalia o cenário de modo mais positivo.
– Se a gente parar para pensar, os grandes clássicos nativistas surgiram nos 1970 e 80. Mas, dos anos 90 para cá, muita coisa boa surgiu. Os festivais podem não ser tão bons como antigamente, mas não se pode fazer terra arrasada – defende.
Reis aponta que não é por falta de qualidade que músicas vencedoras não alcançam uma exposição maior nas rádios e emissoras de televisão. Organizadores muitas vezes não conseguem distribuir adequadamente os CDs com as composições finalistas, fazendo com que muitos não cheguem aos comunicadores que poderiam tocá-las. A má distribuição ainda gera outro problema: dificulta que intérpretes consagrados conheçam canções que se interessariam em gravar.
– Muitas das músicas que conhecemos hoje resistiram ao tempo por terem sido gravadas por grandes nomes ou conjuntos de baile – explica Reis.
Outro ponto assinalado pelos entrevistados é que a produção e o consumo de música estão cada vez mais difusos.
_ Hoje você entra no YouTube e há todo um mundo de novos artistas a conhecer _ diz o compositor Caine Teixeira Garcia.
Manoelito Savaris, presidente do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), lembra que os festivais já tiveram uma espécie de época de ouro:
– Se hoje não têm o mesmo encanto, é porque existem mais alternativas, estão concorrendo com outras coisas.
Circuito em queda
O Rio Grande do Sul já chegou a sediar mais de 70 festivais de música regional. Na virada para os anos 1990, o circuito começou a encolher. Hoje, segundo o Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (IGTF), são menos de 50. Para o músico Edilberto Bérgamo, problemas de gestão explicam a queda.
– Muitos organizadores têm pouca experiência em fazer captação e prestação de contas de leis de incentivo, o que inviabiliza financeiramente muitos projetos. Além disso, às vezes há um grande período sem evento e depois há três ou quatro festivais no mesmo final de semana. A organização pode ser melhorada – diz.
Segundo Manoelito Savaris, presidente do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), o custo de um festival gira em torno de R$ 150 mil, e as possibilidades de captação dependem basicamente da Lei de Incentivo à Cultura estadual (LIC-RS).
– A Lei Rouanet, alternativa federal de incentivo, depende de empresas muito grandes, que geralmente já têm seus próprios projetos, e as prefeituras têm uma capacidade cada vez mais limitada de apoiar – comenta.
Já o jornalista João Vicente Ribas, que faz doutorado sobre música popular gaúcha e mantém o blog Pampurbana, acredita que o fator artístico também influencia na queda de público e dificulta a viabilidade financeira dos eventos.
– Muitos dos festivais se tornaram guetos que reproduzem a mesma música, com letra, melodias e performance passadistas – argumenta.
Presidente do IGTF, Vinícius Brum, concorda que o número de eventos teve queda, mas não acredita que este é um mau sinal para a música regional:
– Os primeiros 20 anos dos festivais foram de crescimento. A partir daí, o que alguns detectam como decréscimo eu detecto como estabilização. Não é mais aquele estrondo que levou a gurizada urbana a tomar chimarrão no Brique da Redenção, até porque essa cultura já foi assimilada. O que vivemos é um momento de circuito consolidado.